Por Peter Bernath, 6º dan & David Halprin, 6º dan
Nota do editor: Essa entrevista com Yamada Sensei aconteceu durante o USAF Summer Camp da Região Leste em 1998, na Universidade de New Hampshire. É a primeira parte de uma extensa entrevista. Aqui, com seu jeito caracteristicamente franco e alegre, Yamada Sensei relembra seus dias como uchi-deshi no Hombu Dojo.

Sensei, a primeira coisa que gostaríamos de lhe perguntar é sobre sua história no Aikido. Sua história pessoal, porque você começou no Aikido e como isso aconteceu?
Eu comecei por causa de meu tio, Tadashi Abe Sensei. Ele era uchi-deshi de O-Sensei bem no início. Foi através dele que eu conheci O-Sensei e o Aikido. Eu dizia pra mim mesmo, um dia, quando tivesse a idade certa, eu queria praticar, queria estudar com O-Sensei. Além disso, eu tive bastante sorte de ser aceito como uchi-deshi devido à minha conexão com Abe Sensei. Eu pensei que essa era uma boa mudança no meu estilo de vida... Uma oportunidade de estabelecer meu caráter. Obviamente, como outros garotos, você quer ser um herói, ser forte, entende? Essa foi minha motivação para iniciar o Aikido.
Você poderia nos contar mais sobre seu tio e seu grupo de uchi-deshi? Qual era a situação?
Não me lembro de muitos detalhes, mas o pai de Abe Sensei respeitava O-Sensei e o dava suporte financeiro. O Sr. Abe era muito dedicado a O-Sensei. Acho que era na época que o Doshu era jovem. Abe Sensei e Doshu eram da mesma idade. Claro que Koichi Tohei estava lá. Eles eram todos da mesma geração. Pessoas como Saito Sensei estavam por ali também, mas acho que ele era um pouco mais jovem.
Creio que Abe Sensei foi o primeiro, antes mesmo do Tohei, a ir para outro continente para apresentar o Aikido. No caso, a França. Naquele tempo, era muito difícil para os japoneses viajarem para fora do continente. Ainda estávamos sob ocupação americana e não era fácil viajar, mas ele conseguiu usando as conexões de seu pai com certas pessoas VIP.
Eu acho que foi muito difícil para ele, obviamente, porque ninguém sabia o que era Aikido. Naquela época, como todo mundo, ele tinha que misturar um pouco de judô e então mostrar o Aikido. Sua filosofia principal não era difundir o judô, é claro, mas ele provavelmente teve que usar pessoas do judô, como aconteceu comigo. Tive de usar judocas e caratecas para fazer demonstrações no início. Não havia mais ninguém.
E claro, Abe e Tohei Sensei eram como irmãos, sabe? Então eles brincavam como irmãos... Lutando... Não exatamente lutando, mas você sabe, eles tinham uma certa rivalidade.
Aconteceu alguma coisa entre eles dois em algum momento?
Bem... Sim. Bom, eu vou contar. Você sabe que Tohei Sensei era muito forte, e sempre que Abe Sensei o desafiava, era derrotado. Uma vez... Foi quando eu estava no ginásio, talvez até antes, e naquela época Tohei estava em Osaka, tomando conta do Dojo de lá ou algo assim. Isso foi logo antes de Abe Sensei ir para a França, então Abe quis desafiá-lo mais uma vez. Bem, Abe Sensei achava que não havia como pegá-lo com o Aikido, e de forma alguma com judô. Ele estava freqüentando a universidade na época e ingressou na academia de wrestling deles. Então ele estudou um pouco de luta e técnicas de chão e ele me disse, “Dessa vez eu posso pegá-lo”. E me levou com ele, como testemunha.
Eu estava sentado sozinho no dojo de Osaka. Tohei Sensei estava com um gi normal de Aikido e hakama, no meio do tatami. Abe Sensei estava com sua roupa de ginástica e meio que o cercando. Ele estava brincando com Tohei sobre seu treinamento de luta, e de repente ele tentou pular nele, com seus braços à sua volta, sabe, como luta Greco-romana,
Agarrando, segurando, mas nada funcionava (risos)! Ele não conseguia pegá-lo de jeito nenhum. Depois disso, no trem a caminho de casa, eu disse para meu tio “Eu pensei que VOCÊ fosse o homem mais forte do mundo”. Ele ficou tão bravo (risos). Logo depois ele foi para a França.
Quanto tempo ele ficou na França?
Não sei. Bastante tempo. Uns 10 anos, mais ou menos. Ele voltou quando eu ainda era uchi-deshi. Quando ele retornou e me viu como uchi-deshi, ele ficou muito feliz.
Antes de se tornar uchi-deshi você considerava outra carreira, ou você sempre achou que iria fazer Aikido?
Não, eu nunca achei isso, nunca pensei no Aikido como uma forma de ganhar a vida. Ninguém pensava, nem Kanai Sensei... Nenhum de nós achava que poderia viver ensinando Aikido. Estávamos felizes apenas por ter condições de praticar.
Qual sua idade quando começou?
17 ou 18... Não tenho certeza. Provavelmente, 18.
Você poderia nos contar um pouco sobre o Hombu dojo na época em que você começou?
Bem, o dojo na época era uma construção mais antiga do que a que você vê hoje. Era um típico dojo de madeira, bonito, com apenas um andar. Como um dojo ele era bom. Ele estava conectado à casa da família Ueshiba, e nós todos dormíamos no tatami, portanto obviamente todo dia você tinha que levantar porque estava dormindo onde as pessoas tinham aula. Nos foi concedido um quarto pequeno na parte da família Ueshiba para que todos puséssemos nossos pertences. Era uma bagunça.
Quando entrei, Arikawa Sensei e Tamura Sensei estavam lá. Havia também um cara, o Sr. Noro, que tinha seu próprio tipo de sistema, tinha eu, o Chiba, Kanai e Sugano. Claro, havia muita gente que entrava e saía, mas basicamente era aquele grupo. Tada Sensei e Yamaguchi Sensei já davam aulas regulares, e acho que Tamura também. Alguns senseis tinham uma ou duas aulas.
Naquele tempo, Koichi Sensei era o instrutor chefe e depois que entrei, ele foi para o Havaí. Ou eu entrei quando ele estava no Havaí, não me recordo exatamente. Mas enfim, foi na época em que havia uma ligação com o Havaí.
Como era o horário no Hombu Dojo naquela época ?
Ainda me lembro claramente. As aulas da manhã eram das 6h30 às 7h30, e das 8h às 9h, então eles não abriam até a aula da tarde das 4h às 5h e das 6h30 às 7h30. Então, no período entre as aulas regulares, havia muitas aulas particulares que as pessoas compravam com, por exemplo, o instrutor chefe Koichi Tohei. Todos nós tínhamos que estar à disposição para fazer ukemi nessas aulas, porque as pessoas ricas pagavam muito bem por essas aulas particulares. Naturalmente, todo o dinheiro ia para a subsistência da sede.
E quanto aos alunos em geral, não os uchi-deshi. Parece que havia muitas aulas particulares. Quantos alunos havia na época? Que tipo de pessoa estava praticando?
Bem... No Japão da época o Aikido ainda não era muito conhecido. Poucas pessoas sabiam a respeito. Eles não faziam propaganda, não havia demonstrações públicas. Agora temos a “Demonstração de Aikido de Todo o Japão” todo ano. Ainda me lembro da primeira, porque O-Sensei não lhes deu permissão para fazer aquilo.
Quem organizava isso?
Depois que o Doshu assumiu, é claro, houve sugestões de várias pessoas. Você entende, tinha que haver uma mudança. Não eram mais os velhos tempos. Acho que o Doshu convenceu O-Sensei de que deveríamos mostrar isso ao público, mas ele não queria. Eu ouvi dizer que nos velhos tempos basicamente, todos os artistas marciais não queriam mostrar suas técnicas aos outros... Como eles sacavam a espada, o que for... Eles não queriam mostrar para ninguém. Eles apenas ensinavam determinados alunos, porque não queriam que o inimigo visse. É por esse motivo que, naqueles tempos, se você selecionasse pessoas como alunos, você precisava de uma apresentação primeiro. Mas isso mudou, assim como nosso dojo se abriu para o público. Qualquer um poderia ingressar. Mas só então começamos a fazer demonstrações públicas. Não era tão organizado lá naquele tempo, sem escritório, sem local para inscrição. As pessoas que ingressavam vinham e abriam as portas de entrada da família Ueshiba. Sempre que ouvíamos alguém chegar durante as aulas, um de nós pulava à frente para ver quem era e recebê-los... “Posso ajudar?” Havia apenas uma mesinha pequena onde eles assinavam para se registrar. Não era tão organizado...
O-Sensei acabou se ajustando à nova idéia de se abrir para o público?
Acho que sim... Acho que ele não tinha opção. Eles precisavam fazer algum dinheiro.
Como era treinar com O-Sensei?
O-Sensei não ensinava num horário regular. O Doshu dava a aula das 6h30 da manhã. Sempre que O-Sensei estava por perto, e sempre que tinha vontade, ele interrompia a aula. Ele simplesmente entrava e dizia “Não se incomode, não se incomode, continue praticando”. Mas ele queria falar. Ele era tão gracioso, sabe? Ele passava por ali enquanto praticávamos porque toda vez que ia usar o banheiro tinha que cruzar a entrada do dojo. Ele ia e voltava, esperando que alguém o convidasse para entrar, sabe? Depois de ser ignorado ele não agüentava. Ele entrava e dizia: “Bom dia a todos”, e falava “Continue, continue...” (risos)... Então ele falava e falava e falava...Era engraçado.
A aula das 8h era dada pelo Tohei Sensei quando ele estava lá. Tohei Sensei e Osawa Sensei, basicamente. Naquela época, Tohei ia muito ao Havaí. Ele ia, ficava um ano, mais ou menos, e então voltava.
Para a aula das 6h30 da manhã nós ficávamos meio atarefados. Tínhamos de limpar o dojo por dentro e fora em meia hora. Acordávamos às 6 horas e tirávamos o pó de tudo, porque era nosso dojo. Era nossa responsabilidade. Tínhamos que terminar antes dos alunos chegarem. Na aula das 6h30, tínhamos de ajudá-los, eles eram meio principiantes. Mas a aula das 8hs era realmente treino para nós. Muitos estudantes de faculdade vinham para aquela aula, então era bom. A aula das 3h da tarde era dada pelo Tada Sensei, que era muito popular com os jovens e esse era bom treino para nós também.
Todos estavam fora com o Doshu ou Tohei nas aulas da noite, porque eles tinham que sair para trazer alguma receita para o dojo. Portanto, não me lembro muito dessas aulas. Além disso, se eu tivesse tempo livre, eu jogava hooky, portanto não ia nessas aulas. De vez em quando eu ia. Eu era um gênio jogando hooky.
Você pode nos contar algumas das suas técnicas? (risos)
Simplesmente desapareça! (mais risos)
Esse é o segredo, apenas desapareça?
É claro que quando ingressei, não havia ninguém abaixo de mim. Só havia Arikawa Sensei, Tamura Sensei e eu, e Noro de vez em quando, mas eu era o mais novo e, portanto, tinha que fazer tudo.
O trabalho mais duro naquela época, e que para mim era o mais fácil, era limpar o banheiro e a sala de banho - havia dois banheiros no estilo japonês. Como levava muito tempo para limpá-los, era uma boa desculpa para se atrasar para a aula (risos). Então, eu me oferecia para fazer essa tarefa. Além do mais, você podia dormir um pouco mais. Eu estava no banheiro, e ninguém me incomodava, e era uma boa desculpa para me atrasar 10, 15 minutos.
Quando conhecemos os instrutores mais velhos, Osawa Sensei, Tada Sensei, Arikawa Sensei, todos tem muitas peculiaridades. Como eles eram na época? Eles eram iguais?
Claro. Tada Sensei nunca mudou. Eu vejo suas demonstrações em vídeos. Ele nunca mudou. Acho que alguém que mudou muito foi Arikawa Sensei, de pior para melhor. Ele era selvagem, maldoso.
Era assustador?
Sim. Era assustador fazer ukemi para ele.
Parece que sempre houve uma relação especial com Osawa sensei?
Sim. Eu era seu uke favorito. Ele gostava de mim. Acredite se quiser, eu era um bom uke. Eu era bem flexível e bem magrinho. Ele tinha uma movimentação de condução ampla, difícil de acompanhar. Sua técnica exigia um bom uke. Dessa forma, ele parecia ainda melhor. É óbvio que todo mundo precisa de um bom uke para parecer melhor. Menos o Arikawa Sensei que não precisa de um bom uke. Não importa... Você não tinha opção (risos)!
Como era com Tohei Sensei?
Fazer ukemi para ele... Era um pouco difícil para algumas pessoas. Eu fazia ukemi para ele às vezes nas suas aulas particulares porque eu falava inglês. Não muito bem, mas na época pelo menos, ele tinha dificuldades em se comunicar por causa de seu inglês híbrido, rudimentar. Mas muitos americanos vinham fazer aulas com ele, então eu tinha que fazer ukemi.
O que aconteceu com Tohei Sensei?
Bom, eu vou contar. Infelizmente, o que aconteceu, mas ele era uma pessoa incrível. Personalidade forte, bom uke, valoroso, você sabe, um grande coração. Completamente o oposto da personalidade do Doshu. O Doshu era mais quieto, pacato. Você podia falar com Tohei Sensei sobre tudo. Ele adorava beber. Ele era como um ídolo. No meu entender ele era. Você sabe, quando você é jovem, você fica impressionado. O cara foi para o Havaí e voltou com uma camiseta havaiana bonita, cheirando à colônia boa e bebendo scotch como água. Eu pensava “Meu Deus”, sabe? Sempre rodeado de mulheres... Nós éramos jovens, sem dinheiro, portanto ele realmente nos impressionou.
Como foi que você começou a dar aulas?
Eu já falava um pouco de inglês. Foi assim que eu acabei dando aula. Naquele tempo havia muitas bases militares americanas ao redor de Tóquio. Essa era outra razão pela qual eu não podia fazer as aulas da noite. Eu era responsável por ensinar em duas bases. Eu saía do dojo as 4h ou 5h para ir para lá. Levava uma hora de trem. A essas alturas, todos os alunos já tinham terminado suas tarefas diárias.
Esses foram bons tempos. Eu ia para o clube dos oficiais depois da aula e bebia um bom Scotch, o que, claro, era impossível conseguir no Japão naquela época. Scotch? Esquece! Mas lá você tomava Scotch como água. Eu também dava aulas na universidade, então todos os alunos de lá queriam vir comigo para me ajudar! Aí, não sei como aconteceu, mas eu e Kanai fizemos uma equipe. Íamos juntos para Yokohama todo fim de semana.
Yokohama? Era lá que era o dojo americano?
Sim. Era numa base militar.
Como que os militares americanos conheceram o Aikido?
Bem, eu não sei exatamente, mas, de novo, havia informações das conexões do Tohei Sensei no Havaí. Foi naquela época que as pessoas começaram a saber mais sobre Aikido, os americanos estavam lá, e alguns militares tinham vindo ao Hombu dojo.
Na época, era uma receita enorme para o Hombu dojo. Quando eu saía para ensinar, eu cobrava por aula, pegava o dinheiro e voltava para o dojo. Era muito dinheiro. Ainda me lembro. Na época o dólar era forte por causa da economia japonesa. O yen não valia nada. Eu acho que naquele tempo, quando ingressei no dojo, a mensalidade era de 500 yens. 500 yens, na época, era um valor considerável. Lembro-me que uma tigela de “lamen” custava aproximadamente 25 yens. Quando eu cobrava pelos gi’s, eu arrecadava 2.500 yens por pessoa por uma aula! Portanto, com 10 ou 15 pessoas na aula, era uma boa quantia, quase o salário que um professor universitário ganhava em um mês eu conseguia em uma noite. Era bom para o dojo.
Você e os outros uchi-deshi da época se tornaram bons amigos?
Sim. Eu não tinha problemas. Eu me dava bem com todo mundo. Éramos todos pobres. Não tínhamos muita chance de sair. De vez em quando, alguém nos convidava, algum membro convidava os uchi-deshi para sairmos juntos. Mas geralmente, todo mundo estava fora dando aulas, então não tínhamos muito tempo para sairmos juntos. De jeito nenhum se saía junto para comer e beber como se faz hoje. Não poderíamos bancar de forma alguma. Quando saíamos juntos, alguém nos patrocinava, nos convidava.
Eu era bem próximo do Noro. Nós passeávamos juntos, bastante. Mais tarde, Kanai Sensei e eu nos aproximamos quando dávamos aula na base militar. Como eu disse, éramos uma boa equipe juntos.
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